Numa casa mal-assombrada em Vejle, na Dinamarca, 110 pessoas de 12 a 57 anos atravessaram corredores cheios de zumbis e monstros escondidos no escuro usando monitores de batimentos cardíacos. Os pesquisadores do Recreational Fear Lab, da Universidade de Aarhus, queriam entender por que alguém paga ingresso para levar susto.
O resultado, publicado na revista Psychological Science, explicou que o prazer cresce junto com o medo até certo ponto e depois cai, como um "U" invertido. A diversão chega ao máximo quando o corpo reage de maneira nítida, sem que o susto seja forte a ponto de tomar conta da pessoa. Os autores batizaram essa mistura de "medo recreativo": sentir pavor e prazer ao mesmo tempo, e gostar da combinação.
Como o Halloween está chegando, a gente foi pesquisar um pouco mais a respeito para tentar entender porque gostamos tanto de histórias que nos apavoram.
O medo como treino
Mathias Clasen, diretor do Recreational Fear Lab, lembra que o medo evoluiu ao longo de milhões de anos para nos proteger do perigo. Brincar com ele, segundo ele, nos ensina como reagimos ao estresse. Os estudos do grupo já registraram melhora na capacidade de lidar com estresse e ansiedade.
Outra pesquisa acrescentou um dado inesperado. Durante a pandemia de covid-19, uma equipe com cientistas dos Estados Unidos e da Dinamarca perguntou a 322 pessoas que tipos de filme e série elas costumavam ver. Quem gostava de terror relatou menos sintomas de depressão, ansiedade e insônia.
Os autores especulam que os fãs de histórias de terror teriam praticado a regulação das emoções diante da ficção, o que os ajudaria a lidar melhor com as situações de estresse na vida real.
Juntas, as duas pesquisas sugerem que o medo serve a duas coisas: nos proteger do perigo real e nos deixar ensaiar o perigo sem pagar o preço.
Uma suspeita antiga
A ideia de que o medo recreativo faz bem é bem anterior aos laboratórios. Na Poética, Aristóteles define a tragédia como a arte que desperta piedade e terror para produzir uma catarse dessas emoções, e cita Édipo Rei como modelo de tragédia bem construída. O sentido exato de catarse (purgação, purificação ou esclarecimento) é discutido há séculos, mas a leitura clássica sustenta que ver o pior acontecer em cena alivia quem assiste.
Em 1976, o psicanalista Bruno Bettelheim levou o argumento para a infância em A psicanálise dos contos de fadas. Para ele, as figuras assustadoras dos contos dão forma a angústias que a criança já carrega, e o final feliz oferece um terreno seguro para enfrentá-las. A leitura que Bettelheim faz de cada conto é muito discutida, mas a tese geral segue influente.
Freud olhou para o assunto de outro ângulo. No ensaio Das Unheimliche, de 1919 (traduzido como O estranho), ele define uma variedade de terror ligada ao que conhecemos de longa data. Assusta mais o familiar que se torna irreconhecível, como uma casa conhecida que passa a parecer assombrada.
Poucas experiências de medo renderam tanto quanto a de junho de 1816, na Villa Diodati, perto do Lago Genebra. O tempo estava tão ruim que ninguém saía de casa, e Lord Byron propôs que cada pessoa do grupo escrevesse uma história de fantasmas. Todas as manhãs perguntavam a Mary Wollstonecraft Godwin (depois Shelley), então com 18 anos, se ela já tinha a sua, e ela precisava responder que não. Um belo caso de bloqueio criativo com final feliz: dessa rodada saíram Frankenstein, publicado de forma anônima em 1.º de janeiro de 1818, e O vampiro, de John Polidori.
Quem decide do que temos medo
Se o medo serve para nos proteger, resta saber quem escolhe o alvo. A bruxa é um bom caso. Ela é antiga na literatura ocidental, com Circe e Medeia entre as primeiras, segundo o editorial do dossiê Feitiçaria e Bruxaria: História e Práticas, da revista Religare, da Universidade Federal da Paraíba. E nem sempre teve a cara que tem hoje.
A apresentação do dossiê Bruxas, Liliths e Fadas, da revista Letras & Letras, da Universidade Federal de Uberlândia, lembra que a feiticeira, na tradição antiga, consolava amantes abandonados com seus rituais, mas acabou com o tempo sendo representada de forma caricatural, com nariz adunco e verrugas, tomando ares assustadores, principalmente para crianças.
Uma dissertação de mestrado da mesma universidade, sobre um romance de Moacyr Scliar, resume o percurso: por centenas de anos a feiticeira foi, tanto uma figura de cura quanto a representação do desconhecido.
Em 1862, o historiador francês Jules Michelet dedicou um livro inteiro a essa figura. Em A Feiticeira, ele acompanha a formação da imagem da feiticeira até a perseguição em massa promovida pela Inquisição, vê na feitiçaria a religião original da Europa e situa na Idade Média o nascimento da figura.
Segundo uma dissertação da Universidade Estadual de Ponta Grossa, o livro tem estética próxima à do romance, preocupação pedagógica e apresenta a bruxaria como uma espécie de “anti-religião”. A mesma pesquisa sustenta que a obra antecipou a ideia de um culto organizado de bruxaria, ligada à bruxaria moderna conhecida como Wicca.
Do outro lado do mapa, os contos populares protegem e disseminam as suas bruxas. Em O Falcão Brilhante, coletânea de contos russos, aparece a Baba-Yaga, a bruxa da tradição eslava que mora numa casa sobre pernas de galinha, ao lado de madrastas, príncipes e animais falantes.
A Filha do Rei Dragão põe bruxas, fantasmas e espíritos ao lado de histórias de amor e de retratos da vida numa China antiga, com casamentos arranjados e direitos desiguais.
E a morte?
A morte, que tanto nos assombra, aparece de frente em dois livros, por caminhos bem diferentes. A Princesa que Enganou a Morte reúne narrativas indianas de caráter épico, alegórico e folclórico. A sinopse destaca que, apesar das diferenças culturais, essas histórias guardam fortes semelhanças com tramas e personagens do Ocidente.
Já em As Máscaras do Destino, a escritora portuguesa Florbela Espanca faz da morte o tema central e a trata como experiência vivida, o que dá mais intensidade a cada palavra.
Para ler com a luz acesa
- Para entender a história das bruxas: A Feiticeira, de Jules Michelet.
- Para conhecer contos de outros países: O Falcão Brilhante, A Princesa que Enganou a Morte e A Filha do Rei Dragão.
- Para não ter medo da morte: As Máscaras do Destino.
