Toda gestante que pesquisa sobre parto normal, em algum momento, esbarra na expressão "parto ativo". Muita gente trata como sinônimo de parto humanizado ou parto natural, e não é bem isso.
Parto ativo é um conceito específico, com autoria, história e data de nascimento conhecidas, e entender essa origem ajuda a entender por que ele continua tão atual, décadas depois de ter sido criado.
Uma mulher, um hospital em Londres, uma pergunta incômoda
No fim da década de 1970, a educadora perinatal britânica Janet Balaskas começou a questionar algo que hoje parece óbvio, mas que na época soava quase revolucionário: por que as mulheres pariam deitadas, imóveis, numa posição que facilita o trabalho de quem assiste ao parto, mas não necessariamente o da mulher que está parindo?
Balaskas vinha de uma formação em yoga. Para ela, o corpo da mulher já sabe, por instinto, como se mover durante o trabalho de parto, se tiver liberdade para isso.
A autora então reuniu essa observação a estudos sobre fisiologia do parto e criou o conceito de parto ativo: a ideia de que a mulher deveria poder se movimentar, mudar de posição, ficar de pé, de cócoras, apoiada, o que fizesse sentido para o seu corpo naquele momento, em vez de permanecer deitada de barriga para cima por indicação de rotina hospitalar.
O termo virou livro, centro de referência em Londres (o Active Birth Centre, que Balaskas fundou e ainda hoje forma profissionais) e um movimento que se espalhou por vários países, incluindo o Brasil, onde Balaskas já esteve pessoalmente em diferentes ocasiões apresentando o conceito a médicas, doulas e gestantes.
Parto ativo não é a mesma coisa que parto humanizado
É comum ver os dois termos tratados como intercambiáveis, mas a diferença importa. Parto humanizado é um conceito mais amplo, que descreve uma forma de assistência ao parto baseada no respeito às escolhas da mulher e na redução de intervenções desnecessárias. Ele pode acontecer num parto normal ou até numa cesárea, quando esta é necessária.
Parto ativo é mais específico. Fala da postura e do movimento do corpo da mulher durante o trabalho de parto: ficar em pé em vez de deitada, usar a gravidade a favor das contrações, ter liberdade para mudar de posição conforme o corpo pede. Um parto pode ser humanizado sem ser, tecnicamente, um parto ativo, e vice-versa, ainda que na prática os dois conceitos costumem andar juntos, porque um ambiente que respeita a mulher também tende a lhe dar liberdade de movimento.
O que muda quando o corpo pode se mover
A base física do parto ativo é simples de entender. Quando a mulher está de pé ou numa posição vertical, o peso do próprio corpo e do bebê trabalha a favor da força da gravidade, ajudando o colo do útero a dilatar e o bebê a descer. As articulações da pelve também ganham mobilidade nessas posições, o que amplia o espaço interno disponível para a passagem do bebê, algo que não acontece da mesma forma quando a mulher está deitada, com o peso concentrado sobre o cóccix.
Uma revisão da Cochrane Library, biblioteca internacional de referência em medicina baseada em evidências, reuniu 25 estudos com mais de 5 mil mulheres e comparou o que acontece quando a mulher permanece em posição vertical, ou caminhando, durante a primeira fase do trabalho de parto, em vez de deitada.
O resultado: em média, essa fase durou cerca de uma hora e vinte minutos a menos entre as mulheres que se mantiveram em movimento, com menor risco de cesárea e menor necessidade de peridural, sem sinal de prejuízo para a mãe ou o bebê. A própria revisão recomenda que as mulheres sejam informadas desses benefícios e possam escolher livremente a posição mais confortável para elas.
Isso não quer dizer que toda mulher deva parir de pé ou de cócoras: significa que ter a opção, e a informação para escolher, faz parte do dever dos profissionais da área e dos direitos da mãe.
Como a Ground apresentou esse conceito ao Brasil
A Editora Ground publicou de forma pioneira o livro Parto Ativo, de Janet Balaskas, dentro de um catálogo que desde 1972 se dedica a apresentar ao público brasileiro temas de saúde, terapias naturais e bem-estar que ainda eram pouco conhecidos por aqui.
Do-In, Shiatsu, Shantala, todos esses temas chegaram ao país pela primeira vez através de livros publicados pela Ground, e o parto ativo caminha na mesma linha: um conhecimento que já existia, mas que precisava de um livro sério, bem traduzido e bem fundamentado para circular entre gestantes, doulas e profissionais de saúde brasileiros.
Segundo a editora Dina Venâncio, o livro chegou às suas mãos através do médico obstetra Adailton Salvatore Meira (que viria inclusive a escrever a apresentação do livro mais tarde). Ela lembra que o Dr. Adailton já estava envolvido com o estudo e a prática do parto natural, tendo ido à Inglaterra por diversas vezes, onde conheceu a autora Janet Balaskas. Então, trouxe o livro para a Editora Ground, pioneira no tema no Brasil com o livro “Nascimento Consciente”. “Ele achou que seria natural publicarmos o livro e assim fizemos. Acabou se tornando um clássico no tema”, ressalta Dina.
O livro reúne a base teórica do movimento criado por Balaskas com orientações práticas: exercícios inspirados em yoga para a gravidez, posições para o trabalho de parto, e a explicação de como a mente e o corpo atravessam esse processo. Não é um manual técnico fechado, é uma leitura pensada tanto para quem está grávida quanto para quem acompanha o parto, seja parceiro, doula ou profissional de saúde.
Por que esse conceito segue relevante hoje
Décadas depois de Janet Balaskas ter começado esse movimento em Londres, a discussão sobre liberdade de posição e protagonismo da mulher no parto continua tão atual quanto era então.
O Brasil ainda tem uma das maiores taxas de cesárea do mundo, e para quem busca informação de qualidade sobre as alternativas, entender o parto ativo é um bom ponto de partida: não como imposição de um único jeito certo de parir, mas como um conjunto de possibilidades que devolve à mulher a informação e a liberdade de escolha sobre o próprio corpo.
Se você está se preparando para o parto, ou acompanha alguém que está, Parto Ativo, de Janet Balaskas, publicado pela Ground, é uma leitura que reúne história, ciência e prática num só lugar.

