Numa sala em Porto Alegre, o horário das 18h reúne duas cenas que não deveriam, a rigor, dividir o mesmo tapete. De um lado, um grupo de crianças espera a vez no tecido acrobático, cochichando quem vai primeiro. Do outro, na mesma turma iniciante, uma mulher de uns 40 anos se prepara para o mesmo exercício, com a calma de quem decidiu, depois de anos de academia, trocar a esteira por outra coisa. Ninguém ali estranha a combinação. É a fotografia mais precisa do que aconteceu com o circo brasileiro na última década: deixou de ser destino de férias só para os pequenos e virou, para adultos, uma escolha de terça-feira.

O boom tem número, e não é força de expressão. Um mapeamento do grupo de pesquisa CIRCUS, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, coordenado pelo professor Marco Bortoleto, constatou que o número de espaços de formação circense no Brasil quase quadruplicou em dez anos.

Para entender esse salto, ajuda olhar para trás: a primeira escola de circo do país foi a Piolin, montada no estádio do Pacaembu em 1977; cinco anos depois, veio a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro. Em 2018, o IPHAN reconheceu as artes circenses como patrimônio cultural imaterial do Brasil. O circo nunca foi novidade por aqui. O que mudou foi a escala, e a quantidade de gente disposta a pagar mensalidade para aprender.

O Circo Híbrido, de Porto Alegre, ilustra bem esse amadurecimento. Nasceu em 2004 como espaço cultural e virou escola formal em 2007. Hoje reúne cerca de 200 alunos matriculados regularmente, com onze professoras dando aula de tecido, trapézio, bungee e lira para públicos de todas as idades sob o mesmo teto. Não é um caso isolado: é o retrato em miniatura do que a pesquisa da Unicamp mostrou em escala nacional.

Mais Do Que Uma Boa Opção Para as Férias

Para os pais, a explicação passa longe do estereótipo do circo como escape adolescente. Um estudo da Northumbria University acompanhou crianças de 9 a 12 anos por seis meses de circus skills training dentro da educação física escolar e comparou os resultados com um grupo que seguiu a grade tradicional. As crianças que praticaram circo apresentaram menos problemas emocionais, segundo a avaliação dos próprios professores.

Na Austrália, um estudo da University of South Australia, liderado pelo pesquisador Richard McGrath, calculou que cada dólar investido em programas de circo infantil gera sete dólares de retorno social, com ganhos concentrados em alívio de estresse, autoestima, confiança e socialização.

Há um detalhe nessa literatura que explica por que tantos pais de crianças "diferentes", como costumam dizer, procuram o circo primeiro. Ao contrário do futebol ou do vôlei, o circo não tem time, não tem banco de reservas, não existe aquele momento em que a criança fica de fora porque não foi escalada.

Cada aluno avança na própria velocidade, o que atrai justamente quem já cansou de ser o último escolhido na quadra. Um estudo qualitativo publicado em 2025 na Annals of Leisure Research, feito a partir de entrevistas com pais de crianças praticantes, mapeou ganhos simultâneos em desenvolvimento cognitivo, físico e social, muitas vezes descritos pelos próprios pais como inesperados.

Serve Para Adultos Também. E Como!

E os adultos daquela turma em Porto Alegre? Aqui está o ponto que a maioria das matérias sobre férias nunca menciona: nada disso exige ter oito anos, nem sonhar em fugir com o circo.

Uma pesquisa com 500 artistas circenses, entre profissionais e amadores, encontrou relação entre a prática recreativa e níveis mais altos de resiliência, com menos sintomas de ansiedade, depressão e estresse.

Uma revisão sobre arte e saúde, da mesma linha citada em compilações da Organização Mundial da Saúde sobre bem-estar, mostra que atividades como o circo constroem autoestima e autoaceitação em adultos, funcionando como proteção contra problemas de saúde mental.

No corpo, os ganhos aparecem já na primeira aula de iniciante: força de core, equilíbrio, consciência corporal, um tipo de alongamento ativo que nenhuma aula de alongamento passivo entrega.

Falta desarmar a objeção mais comum: "eu não tenho jeito nenhum para isso". A maioria das escolas hoje separa turmas por nível e idade, e turma de adulto iniciante virou item padrão de grade. A Funesc, na Paraíba, e o Galpão do Circo, em São Paulo, têm turmas assim, com mensalidade acessível e nenhuma exigência de experiência prévia. Ninguém pede referência de ginástica olímpica na porta.

Professores, Especialistas e Terapeutas Especializados

Quem ensina essas turmas, no fim das contas, sabe melhor do que qualquer estudo o que acontece quando um corpo adulto encontra o tecido pela primeira vez. Malu Vieira é uma dessas pessoas. Aerialista, rigger e professora, fundou o Casulo, Artes Circenses, em Recife, em 2017, onde dá aula de tecido, trapézio fixo, consciência corporal e flexibilidade. É mestra em Letras pela UFPE, formada em Instrução Circense pela École Nationale de Cirque, em Montreal, e já recebeu três vezes o Prêmio Palhaço Cascudo de Incentivo às Artes Circenses. Também assina o Circo Acessível, projeto de ensino de circo para pessoas surdas, e o FLIC, formação voltada a instrutores de circo. Anos ensinando corpos tão diferentes uns dos outros deixam claro algo que a pesquisa só confirma depois: o circo se adapta a quem chega, não o contrário.

Foi essa mesma experiência de sala de aula que levou Malu a traduzir um livro fundamental. Por trás de toda essa expansão de escolas e alunos, há um trabalho pouco visível: o de professores e fisioterapeutas que estudam a fundo o corpo do artista circense, porque tecido e lira cobram do corpo algo que nenhuma modalidade convencional cobra.

É esse o assunto de Anatomia Aplicada às Artes Aéreas, da fisioterapeuta norte-americana Emily Scherb, com tradução de Malu Vieira e revisão técnica de Hammai Assis, publicado pela Ground: a primeira obra sobre o tema em português, pensada para professores de circo, para praticantes que querem entender o próprio corpo e para os profissionais de saúde que hoje atendem esse público em crescimento.

Quem entra nesse universo, ou vê um filho entrando, cedo ou tarde esbarra na pergunta sobre o que o corpo aguenta lá em cima. Até pouco tempo, a resposta só existia em inglês.

Anatomia Aplicada às Artes Aéreas, de Emily Scherb, tradução de Malu Vieira, 203 páginas com ilustrações coloridas, Editora Ground