Sabe quando você compra alguma coisa que queria muito, se sente super feliz e, segundos depois, a mágica simplesmente desaparece? Pois é, acontece a mesma coisa com as crianças. Muitas vezes influenciada pelo que vê à venda, a criança, assim como nós, associa apenas alguns presentes à felicidade. A boneca hypada e o carrinho mega tecnológico são legais, mas vamos esquecendo aos poucos que presente é só a materialização de um ato de amor. Importa muito mais a atenção, mas desaprendemos isso.

O Dia das Crianças existe por decreto desde 1924. Naquele ano, o presidente Arthur Bernardes instituiu a “festa da criança” em 12 de outubro, e a data passou as três décadas seguintes quase sem que ninguém reparasse nela. Quem tirou a data do papel foi a indústria. A fabricante de brinquedos Estrela lançou a Semana do Bebê Robusto, a Johnson & Johnson entrou com um concurso de bebês, e outubro virou, desde então, mês de vitrine.

Nada contra o presente comprado e embrulhado. O problema costuma aparecer no dia seguinte, quando o brinquedo novo já perdeu a disputa para a tela. Uma pesquisa do Datafolha para a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, feita em 2025, mostrou que crianças de até 2 anos passam em média duas horas por dia diante de telas, justamente na idade em que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda exposição zero. Entre 4 e 6 anos, 94% têm contato diário com algum dispositivo.

Presente que vale de verdade é aquele que cria memórias. A seguir, três programas para o dia 12 que custam pouco, cabem dentro de casa e deixam muita coisa para lembrar pelos dias (e anos) seguintes.

1. Construir o brinquedo junto

A educadora Nylse Helena Silva Cunha dirigia o Instituto Indianópolis, em São Paulo, quando abriu ali, em 1981, a primeira brinquedoteca do Brasil. A palavra, aliás, é dela. Nylse dedicou um livro inteiro à sucata como material de brincar, Criar para Brincar, em que mostra como cada atividade conversa com uma fase do desenvolvimento e por que o processo de construir conta tanto quanto o brinquedo pronto.

Na prática, a caixa de recicláveis da cozinha resolve o começo. Duas garrafas PET cortadas e encaixadas pela boca, com dois barbantes atravessados de ponta a ponta, viram o vai e vem, brinquedo que atravessou gerações nas calçadas brasileiras e ainda funciona do mesmo jeito: cada um segura um par de pontas, abre os braços e a peça corre de um lado para o outro. Rolos de papel-toalha, tampinhas e caixas de ovo rendem outros tantos.

A criança pequena corta, cola e pinta. A maior já consegue planejar, decidir o que vai construir, medir, errar e refazer. É nesse refazer que o brinquedo ganha valor, porque foi ela quem descobriu como ele funciona.

Um cuidado simples ajuda: separe o material na véspera e deixe a criança escolher o que quer fazer. Tesoura sem ponta, fita crepe e cola branca bastam para começar.

2. Uma brincadeira para desacelerar

Depois da festa, do açúcar e dos primos, vale reservar um tempo para baixar o volume. Micheline Nadeau reuniu em Brincadeiras para Relaxar atividades para crianças de 5 a 12 anos a partir de uma ideia simples: relaxamento também se aprende brincando, e a criança que sente a calma no próprio corpo aprende a reconhecê-la depois.

Uma sugestão para testar em casa: cada um deita no chão com um bicho de pelúcia sobre a barriga e tenta fazê-lo subir e descer bem devagar, só com a respiração. Quem conseguir “ninar” o bicho por um minuto inteiro escolhe a próxima brincadeira. Parece pouco. Para uma criança de seis anos no fim de um dia de festa, um minuto de respiração lenta é um exercício e tanto, e muitos adultos também saem dele mais leves.

A criança é muito pequenina? Tem dicas incríveis em como divertir e aumentar o vínculo em 125 Brincadeiras para estimular o cérebro de seu bebê e 125 Brincadeiras para estimular o cérebro da criança de 1 a 3 anos, vale conferir!

3. Uma história lida em voz alta

O terceiro programa é o que mais se estende para além do dia 12. Quem lê em voz alta para uma criança costuma descobrir que a hora da história vira ritual: ela pede o mesmo conto de novo, reclama quando um trecho é pulado, antecipa as falas dos personagens.

Contos tradicionais funcionam muito bem nessa hora porque nasceram para ser contados. Circularam de boca em boca durante séculos antes de alguém escrevê-los e guardam o ritmo de quem narra para uma plateia, com repetições, suspense e um final que se resolve. Vale ler devagar, fazer vozes (mesmo desafinadas) e parar antes do desfecho para perguntar o que a criança acha que vai acontecer.

Livros para dar de presente

Para quem prefere ter algo embrulhado para entregar, ficam aqui sugestões do catálogo do Grupo Editorial Ground que duram muito além de outubro.

Para ler junto 

A coleção Contos Mágicos reúne narrativas tradicionais de diferentes partes do mundo, recontadas para jovens leitores. Dá para montar com ela uma pequena volta ao mundo:

•             O Príncipe Teiú e Outros Contos Brasileiros, de Marco Haurélio, traz contos de encantamento da tradição oral brasileira, entre eles o do príncipe transformado em lagarto. O livro foi selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) em 2013.

•             O Silêncio dos Macacos e Outros Contos Africanos, de Fernando Alves, e O Jabuti e a Sabedoria do Mundo apresentam histórias de várias regiões da África, com seus bichos e seus modos de explicar o mundo.

•             A Princesa que Enganou a Morte reúne contos indianos adaptados por Sonia Salerno Forjaz.

•             As Maçãs Douradas do Lago Erne leva a criança para as lendas celtas.

Para os adultos que vão brincar junto

Além de Criar para Brincar e Brincadeiras para Relaxar, vale conhecer Brinquedoteca: um Mergulho no Brincar, também de Nylse Helena Silva Cunha, para quem pensa em montar um canto de brincar em casa ou na escola.


Se a ideia é continuar tirando a criança da rotina depois do feriado, veja outros textos aqui no blog, como o artigo sobre escolas de circo, que mostra por que tantas famílias estão trocando a aula de sempre pelo trapézio. E quem quer aproveitar a brincadeira para conversar sobre generosidade e convivência encontra caminhos em como ensinar valores desde a infância. As dicas do post sobre o que as crianças mais precisam nas férias também valem para um feriado prolongado.

O brinquedo comprado vai ter o seu dia. A tarde construída junto costuma ficar na memória por muito mais tempo.

Clique para conferir os Livros para Brincar junto com as crianças:

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